Cosmovisão Vida Cristã

O Reino de Cristo Não é deste Mundo – Entre a Fé e a Política

11/02/2017
reino de deus
Não duvide da força restauradora do Evangelho

O reino de Deus não é edificado por um decreto da parte de um imperador ou pela força de um exército, ele é edificado por um único meio: a proclamação do Evangelho. Este é o poder que Deus ordenou para edificar a sua Igreja, como cristãos, continuaremos a colocar nossa esperança neste poder, e somente neste poder.


Vale lembrar que os primeiros cristãos não depositavam a esperança no Estado e/ou na espada, nem pregavam tal probabilidade.

No tempo em que Jesus andou entre os homens, as multidões vieram para torná-lo o rei dos judeus pela força, e Ele se retirou. Em seu julgamento diante de Pilatos (governador romano), Cristo deixou enfaticamente claro que Seu Reino não era político para ser protegido e promovido pela força das armas, mas, era um Reino espiritual a ser propagado pela pregação da Verdade de Deus. Quando, apesar disso, o Sumo Sacerdote judeu tentara convencer Pilatos de que Jesus era de fato um ativista político, tanto Pilados como Herodes deram como seus vereditos que nada disso era verdade (Lucas 23:1-25). Similarmente, quando Paulo foi acusado diante dos tribunais romanos de atividade política subversiva, tanto Gálio, governador romando de Corinto, quanto o governador Festo e o rei Agripa em Cesareia, após completa investigação, declararam o Apóstolo Paulo completamente inocente de tal acusação (Atos 18:12-17;26:31-32).

Lucas, por sua parte, torna claro o que o Cristianismo quer dizer proclamando Jesus como o rei (At.17:1-3). O programa que o Antigo Testamento revelou para o Messias prometido, longe de afirmar que o Messias se estabeleceria como um rival político para os outros governantes da terra, profetizou que ele sofreria, morreria e, então, ressuscitaria dos mortos e ascenderia aos céus. Esse era o programa que de acordo com Paulo, Jesus cumprira. Quando Ele vier novamente para estabelecer Seu Reino na terra, não será como um político meramente humano disputando com os outros políticos por um compartilhamento do governo da terra, mas como Senhor e Criador da humanidade vindo com o direito divino de julgar o mundo e levar suas criações ao próximo estágio de desenvolvimento.

Infelizmente, no decorrer da história a cristandade teve uma tendencia marcante de esquecer as óbvias distinções entre o Evangelho e os  diferentes sistemas políticos e por vezes forçou uma identificação: no quarto século, com o imperialismo romano; na Idade Média, com o feudalismo e a monarquia absolutista e o direito divino dos reis; em tempos mais recentes, com a democracia liberal; e ainda mais recentemente, com uma forma cristianizada de marxismo, a chamada Teologia da Libertação ou Missão Integral. O preconceito contra os verdadeiros cristãos que esse hábito criou na mente das pessoas e nações que preferiram outros sistemas políticos legítimos, foi lamentável, ou seja, resumidamente, quando a fé se confunde  com a política a proclamação do Evangelho é diretamente afetada e os seguidores de Cristo ficam enfraquecidos.

Há, então, uma necessidade urgente de se retornar além dos séculos intervenientes às palavras de autoridade do próprio Cristo:

Meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas, agora, meu Reino não é daqui.” Contudo, Pilatos lhe inquiriu: “Então, tu és rei?” Ao que lhe respondeu Jesus: “Tu dizes acertadamente que sou rei. Por esta causa Eu nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que pertencem à verdade ouvem a minha voz. – (João 18:36-37)

Quando o cristão perde de vista a necessária separação entre Igreja e Estado e passa a identificar certa ideologia com o Reino de Deus, ele trai miseravelmente seu chamado de proclamar Jesus Cristo como o Rei dos reis, Senhor da senhores.

A fé cristã (especificamente a reformada) reconhece somente a Deus como o Único Soberano e Senhor de todas as esferas da Criação. Qualquer ser humano ou partido que tente exigir culto no lugar do Criador deve ser confrontado. Nesse aspecto os cristãos têm a liberdade — que mesmo os melhores entre os incrédulos não têm — de criticar qualquer sistema político, qualquer ideologia, pois o fazem com base na crença de que somente o Soberano Deus tem o direito de comandar todas as esferas de uma sociedade.

Embora seja da opinião de muitos que o negócio principal do Cristianismo é preocupar-se com questões morais e valores humanos: denunciar a mentira, o roubo, o adultério e todos os pecados individuais semelhantes, e ao mesmo tempo encorajar pessoas a perdoar seus inimigos, a amar, a ser boas umas com as outras, não é bem esse o foco do Evangelho. Se essa for nossa impressão, tomaremos um choque quando abrirmos pela primeira vez as páginas da história de Lucas e lermos por nós mesmos seu registro dos primeiríssimos sermões que os cristãos pregavam, eles não se preocupavam em denunciar pecados individuais, nem em encorajar as pessoas a desenvolverem virtudes dignas, isso não significa que os primeiros cristãos eram indiferentes às questões éticas e os valores morais humanos: as cartas que os Apóstolos escreveram aos seus primeiros convertidos estavam cheias de tais instruções morais. Mas, o registro de Lucas mostra que a aparente falta de interesse dos primeiros cristãos pelos pecados individuais, ocorria porque estavam ocupados com um pecado em particular, de esmagadora importância, a ressurreição de Cristo havia demonstrado que Ele era (é) o Filho de Deus em poder; e a inevitável implicação assustava: Israel havia crucificado seu Messias enviado por Deus; os seres humanos haviam matado a Fonte de sua vida (3:15); a humanidade havia assassinado seu Criador. A crucificação de Cristo, como os primeiros cristãos a viam (baseado na Escritura), era a pura violência humana contra Deus: um esforço combinado tanto por judeus como por gentios para rejeitar o constrangimento e as alegações de Deus sobre eles (Atos 4:23-31).

A síntese do Cristianismo é que a cruz de Cristo diagnostica qual é o problema básico do mundo inteiro em todos os tempos. Não é a hostilidade do homem para com o homem: esse é apenas um sintoma secundário. É a hostilidade do homem para com Deus. A crucificação do Filho de Deus foi somente o cone de um vulcão por meio do qual, em um determinado tempo e lugar na história, entrou em erupção aquele ressentimento e rebelião profundos contra Deus que, desde a primeira vez em que o homem pecou, queimava lentamente no coração de todos, religioso ou irreligioso, antigo ou moderno.

A parábola dos trabalhadores da vinha (Lucas 20:9-18), que nosso Senhor contou primeiramente contra os líderes religiosos de seu tempo, salienta o mesmo ponto. O mundo em que vivemos tem um Proprietário Pessoal, e não somos nós! Nós somos apenas inquilinos e mordomos. E o herdeiro da vinha é o Filho do Proprietário. Porém, as pessoas não estão contentes com a condição de inquilinas. Elas vivem como se não houvessem senhorio algum, ou, se houvesse um senhorio, elas vivem como se ele não tivesse nenhum direito de esperar qualquer tributo de amor, obediência, devoção e serviço da parte delas. Elas agem como se a elas pertencesse a propriedade livre de sua própria vida, como se o mundo pertencesse a elas que não possuem nenhum amor pelo Filho do Proprietário, para quem, de fato, o universo foi feito, que fora o agente em sua Criação, é mantenedor de sua estabilidade atual, e é seu redentor e restaurador final (Colossenses 1:16-20; Hebreus 1:1-3).

O salário do pecado é a morte (Rom. 6:23), todos pecaram e estão afastados da Glória de Deus (Rm.3:23). O pecado afetou não apenas nosso relacionamento com Deus, mas tudo ficou desconexo na terra: “por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus” (Rm.8:19). É somente através da Pessoa de Cristo que podemos resolver esse problema.

O versículo de João 8:32: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” — faz referência ao Filho de Deus que tira o pecado do mundo. Ao lermos o versículo dentro do contexto encontramos esse diálogo:

Então, disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: “Se permanecerdes na minha Palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:31-33

A Escritura diz que é preciso crer e permanecer para conhecer a liberação através da verdade. Aqueles que crêem em Jesus e permanecem na Palavra de Deus são discipulos, seguidores de Cristo, – cristãos, filhos de Deus religados ao Pai, libertos do salário do pecado aguardando o dia do retorno glorioso do Rei dos reis.

O papel do discípulo não é ser um ativista político ou um moralista hipócrita que vive a apontar os pecados individuais dos outros enquanto ignora os seus. Por exemplo, do mesmo modo que a Escritura fala contra a homossexualidade, também fala da lascívia, prostituição, fornicação, bebedeiras, coisas que héteros praticam e que muitos jovens adeptos do conservadorismo político (direitistas) têm praticado também. Ser cristão é viver tendo a consciência de que o Reino de Jesus não é deste mundo e que como seus seguidores nosso dever é proclamar em primeiro lugar o Reino espiritual.

O problema em confundir fé com politica é que as pessoas abraçam os conceitos cristãos pela metade e não servem a Deus como foram chamados a servir. Aquele que acha que ser cristão é o mesmo que ser de direita (ou mesmo de esquerda), está totalmente confundido e precisa se converter verdadeiramente a Cristo para que comece a buscar e proclamar o Reino que não é deste mundo.

Segundo o reverendo Mauro Meister: a teologia de alguém determina a espiritualidade (para usar o termo bíblico, a piedade, ou seja, não apenas a ação externa, mas o que vai no coração em função do que se crê) que, finalmente, determina a ética (a manifestação externa e última do que se crê a respeito de Deus, do homem e do mundo). — Entender que sua convivência social, familiar e profissional são parte da vida cristã onde o homem é um mordomo de Cristo, aquele que exerce papel social como um empregado do único e verdadeiro dono da Criação, cuidando e zelando da melhor forma possível para que Deus seja através dele, e de seu trabalho, glorificado, — é essencial para ter lucidez e coragem no combate a corrupção, esse é um exercício do amor ao próximo pregado por Cristo.

A Graça veio para que os homens pudessem extrair de um mundo morto, vida suficiente para viver até que se cumpram todos os planos de Deus. Segundo o Evangelho, de acordo com a primeira seção de Atos, Deus não está preocupado meramente com a nossa salvação espiritual, Ele tem planos para completa restauração da criação física. A Bíblia afirma que toda Criação tem um destino glorioso, e a ressurreição corporal de Cristo é a primícia da restauração do universo inteiro. A vinda do Espírito Santo para viver no nosso corpo é a primícia de sua grande herança (vindoura), não apenas nossos corpos físicos, mas a própria criação, serão libertos de sua servidão à corrupção e trazidos à gloriosa liberdade dos filhos de Deus (I Coríntios 15:20-25; Romanos 8:18-25). E, novos céus e Terra serão feitos (Apocalipse 20:11, cap. 21:1).

O reverendo Augustus Nicodemus diz que ao reconhecer a graça comum de Deus, o cristão entende que o caminho para a ética na política não é necessariamente colocar em cargos políticos quem se professa cristão, mas contribuir para que os princípios de igualdade, justiça, honestidade, verdade, transparência, equidade, misericórdia e outros, sejam reconhecidos e exercidos por todos, independentemente da convicção religiosa.

Então, entre a fé e a política, opte pela fé porque “sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam.” (Hb.11:6). Creia  no poder restaurador do Evangelho, anuncie que todos nós pecamos ao nos rebelarmos contra Deus, entenda que todos nós temos uma natureza  corrupta totalmente dependente da Graça Gloriosa de Cristo, que necessitamos reconhecer Jesus como Senhor de todas as coisas e viver de acordo com Sua Palavra, não apenas naquilo que nos é conveniente, mas, em tudo aquilo que nos é ensinado na Escritura. — O Estado não é soberano, a Igreja não é soberana, as instituições não são soberanas, o individuo não é soberano, nenhuma ideologia política é soberana, somente Deus é Soberano. Reconhecer isso é o primeiro passo para redenção do homem.

Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido. – 1 Coríntios 13:12

Ref.: Franklin Ferreira: Contra Idolatria do Estado; R.C. Sproul: Qual a Relação entre a Igreja e o Estado; John Lennox e David Gooding: A Definição do Cristianismo.



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