Feminismo

ORGULHO FEMININO

16/07/2020
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A IMPUNIDADE DE MULHERES QUE ABUSAM
Elas deram um nome para os abusos cometidos por homens, machismo. Mas qual o nome dos abusos cometidos por mulheres?

As abusadoras preocupam especialistas no mundo todo, porque as estatísticas ‘escondem’ abuso de mulher. Evidências de que as mulheres abusam sexualmente das crianças estiveram disponíveis nos últimos 30 anos, mas permaneceram bem escondidas, por causa de estereótipos criados em relação à sexualidade feminina e à idealização das mulheres como fornecedoras de cuidado e alimentação.


A visão que se tem das mulheres como não agressoras sexuais dificulta a crença de que elas possam praticar o abuso sexual. Além disso, algumas pessoas consideram difícil compreender de maneira precisa como as mulheres poderiam abusar sexualmente. Pesquisas mostram que mulheres abusadoras de crianças cometem vários tipos de atos sexuais, que incluem tocar os genitais, forçar a criança a sugar-lhes os seios ou a genitália, masturbação mútua forçada, penetração da vagina ou do ânus da criança com objetos e o coito propriamente dito. Por vezes, o abuso sexual é acompanhado de espancamento físico da criança.

Há uma tendência de se achar que o agressor é sempre o homem. Diz o médico Carlos Diêgoli, coordenador do Pavas, Programa de Atenção às Vítimas de Abuso Sexual da Faculdade de Saúde Pública da USP.

As mulheres são, de uma forma geral, percepcionadas pela sociedade como protetoras, maternais e cuidadoras. Desde sempre associadas ao carinho, ao amor e ao colo, incapazes de magoar, de maltratar e, muito menos, de abusar sexualmente. De uma forma automática, associamos o abuso sexual aos homens. São estes que agridem e abusam. Ainda que de forma inconsciente, o abuso sexual continua a ser associado à existência de um pénis.

As estatísticas mostram-nos que a negligência e os maus tratos, físicos e emocionais são, acima de tudo, perpetrados pelas mães/cuidadoras. Pelo contrário, o abuso sexual surge com maior prevalência associado a perpetradores do sexo masculino. Estas mesmas estatísticas dão-nos conta de números irrisórios, quase inexistentes, relativos a mulheres que cometem este último tipo de crime. Não porque esta realidade não exista, mas sim porque não estamos, de fato, atentos e despertos para a mesma.

Na literatura internacional e nos poucos relatos colhidos em São Paulo, a mulher que abusa é geralmente a mãe, mas há casos de tias, avós e vizinhas. No Brasil, ainda não há estudos sobre mulheres que abusam nem pesquisas sobre o número e as condições em que ocorre o abuso. Por que será? Não há interesse público, e os coletivos feministas batalham para tornar a narrativa de que mulheres são seres idôneos. Afinal, o problema dos abusos é o machismo.

Nas entidades que lidam com esse tipo de violência, apenas as ocorrências mais marcantes são lembradas. Em um dos casos registrados pelo SOS Criança, uma avó obrigava os três netos menores de 12 anos a manterem relações entre eles e a fazerem sexo oral com ela. Em outra ocorrência, uma mulher aproveitava a saída do marido para dividir a filha de 10 anos com a amante. O Hospital das Clínicas teve um caso de uma menina de 6 anos que pegou sífilis de uma tia.

Maria Inês Valente, coordenadora das 124 Delegacias da Mulher do Estado de São Paulo, diz que os casos envolvendo abusos de mulheres são raros. “Práticas sexuais de mães contra filhos nem sempre envolvem violência. Por isso, não há denúncia. Muitas vezes, a criança nem se dá conta do abuso.”

Na perspectiva das vítimas, estes comportamentos surgem, muitas vezes, mascarados com comportamentos de cuidado. As massagens, a brincadeira das cócegas, o banho ou a verificação se está tudo bem com os órgãos genitais. Nem sempre as crianças, especialmente as mais novas, conseguem sequer identificar estes comportamentos como tendo uma raiz abusiva. São os chamados comportamentos de duplo significado.

As vítimas mais velhas e, em especial, as do sexo masculino, sentem-se muitas vezes especiais, únicos, e estes comportamentos acabam por ser percepcionados não como um abuso sexual, mas sim como uma prova da sua masculinidade. Ou seja, temos, por um lado, uma comunidade “cega” face a esta realidade e, por outro, vítimas que nem sequer se percepcionam enquanto tal. Por vezes só anos mais tarde olham para trás e percebem que foram vítimas de abuso sexual. Neste contexto, é compreensível o baixíssimo número de sinalizações de suspeita de abuso sexual em que o agressor é do sexo feminino. As chamadas “cifras negras”, ou seja, toda a base do iceberg que está oculta.

Segundo um dado da PF (Polícia Federal), a cada dez pedófilos, um é mulher. Assim como os presídios masculinos têm alas reservadas para estupradores, chamadas “seguro”, os femininos também possuem e elas estão ocupadas.

Cláudia Priori, especialista que estuda mulheres encarceradas, fala sobre a insistência feminista de negar a existência de mulheres violentas e agressivas, isso dificulta o trabalho de pesquisa na área. Segundo ela, para pensarmos a questão da naturalização da não violência das mulheres é preciso entender que se trata de uma construção discursiva do gênero, em que as imagens e representações acerca da feminilidade não concebem a violência, a agressividade e as práticas criminosas como atributos do feminino. Assim, buscamos pensar essa aparente impossibilidade da violência feminina, analisando como vão se constituindo as relações de gênero e as práticas sociais. Os estudos de gênero procuraram, nos últimos anos, evitar as oposições binárias fixas e naturalizadas, postulando então a dimensão relacional entre os gêneros, trazendo novas interpretações, novos enfoques e perspectivas para os variados contextos históricos. Neste crivo, é preciso romper com a cristalização de imagens e representações sobre a fragilidade, controle, delicadeza, modelos de virtude e dos costumes, colados histórica e socialmente à identidade atribuída às mulheres, e buscar entender as relações de gênero permeadas de relações de poder, bem como compreender as múltiplas faces da feminilidade, dependendo do contexto social e político, e ainda, e de modo particular, a violência cometida pelas mulheres.

Badinter assinala que:

[…] do lado feminista, o assunto é tabu. Permanece impensável e impensado tudo aquilo que diminui o alcance do conceito de dominação masculina e da imagem das mulheres vítimas. Quando se fala disso, é sempre da mesma maneira: primeiro, a violência feminina é insignificante; segundo, é sempre uma resposta à violência masculina; por último, essa violência é legítima. (2005, p.73)

A autora afirma ainda que na verdade, a violência feminina é difícil de pensar não apenas por razões militantes – a violência talvez não tenha sexo -, mas também porque põe em perigo a imagem que as mulheres têm delas mesmas (BADINTER, 2005, p.75).

A ideologia dominante nos discursos e representações é a de uma feminilidade passiva e amistosa em oposição a uma masculinidade ativa e violenta. Um dualismo que coloca a mulher sempre como vítima e o homem sempre como o agressor, o algoz. A violência parece ser inerente à masculinidade, ao desejo de dominação masculina. Entretanto, não podemos negar a violência feminina, ela sempre existiu, existe e se manifesta de várias formas tanto na esfera privada quanto na pública. Mas, a violência feminina ainda é pouco discutida, e quando é referida, recorre-se à violência masculina ou à violência da sociedade como causadoras daquela.

A naturalização do discurso de que as mulheres não são violentas, bem como a assimetria estatística existente entre os atos de violência cometidos por homens e mulheres, não tem despertado grande interesse para estudos destacando a violência feminina. Entre os historiadores o tema tem sido pouco estudado, ficando mais a cargo de psicólogos, psicanalistas, antropólogos, sociólogos, entre outros.

Atualmente existe um consenso de que a maioria das vítimas de violência sexual são mulheres e crianças e que os agressores são homens. Contudo, 5% dos crimes de violência sexual são cometidos por mulheres, e mesmo que seja um volume muito pequeno, é um tema que precisa ser estudado e analisado, até porque esses números são considerados subestimados.

As vítimas desse crime não podem ser ignoradas, e o perfil dessas mulheres precisa ser analisado, até para que seja possível a sua identificação e denúncia, tendo em vista que é um crime com menos vestígios e com vários fatores que atrapalham o seu reconhecimento.

A violência sexual é um tipo de crime em que o Criminal Profiling possui mais facilidade para conseguir elaborar um perfil criminal, então, no caso de agressoras sexuais, isso não é diferente e às vezes até necessário.

Para demonstrar um pouco sobre o tema, existem quatro tipologias estipuladas por Gannon e Cortoni para os tipos de agressoras sexuais divididos em:

  • 1) Mulheres que abusam crianças pequenas
  • É um grupo pequeno que comete o crime contra crianças pré-púberes, principalmente em casos de mães e filhos. Costumam agir sozinhas e normalmente são mulheres com perturbações mentais. Além disso, podem ter sofrido abuso sexual ou sofrido traumas graves na infância. Elas tendem a ter uma visão distorcida da realidade, parafilias e desvios sexuais com uso de violência.
  • 2) Mulheres que abusam adolescentes 
  • São mulheres que exercem uma posição de poder, principalmente pela idade, e que consideram o adolescente vítima do abuso sexual como adulto e veem o ato como algo consensual e não como criminoso. A probabilidade de ter sofrido violência sexual é pequena. Podem ser observados em casos de professora com aluno e de mãe com filho que geralmente são mais noticiados e servem como exemplo desse tipo de abusadora. Inclusive, existe um filme chamado Notas Sobre um Escândalo (2006), que fala, entre outras coisas, sobre o envolvimento de uma professora com um aluno adolescente.
  • 3) Mulheres que atuam com coautoria 
  • São aquelas que atuam acompanhadas. As mulheres acompanhadas de homens são o maior grupo de ofensoras sexuais das quatro tipologias. Elas podem atuar espontaneamente ou coagidas pelos homens. Elas podem, inclusive, envolver familiares como filhas no ato quando coagidas, por serem emocionalmente dependentes.
  • Um exemplo bastante conhecido desse tipo de abusadora é o caso real de Karla Homolka, que junto ao seu marido Paul Bernardo tinham relações sexuais com meninas adolescentes e depois os dois matava e desovava os corpos. Existe uma controvérsia se ela era coagida ou não por Paul ser muito violento, então vale a pena ler sobre o caso.
  • Nesses casos é muito importante analisar quem atua com essas mulheres para melhor compreensão do comportamento da agressora, até para tratar e intervir.
  • 4) Mulheres que abusam adultos
  • São os casos que ocorrem em menor número e dificilmente são detectados, então não há uma classificação adequada para como elas agem. Pesquisando em notícias é possível encontrar casos de mulheres em grupo que dopam homens e obrigam a satisfazê-las sexualmente. Existem os casos de relações homossexuais também, mas esses praticamente não existem relatos de denúncias ou estudos.
  • Existem também análises sobre as faixas etárias dessas agressoras e suas características predominantes. Na fase da adolescência, por exemplo, elas costumam apresentar, entre outras características, disfunção familiar, exposição à violência, problemas de aprendizagem, delinquência e comportamentos sexuais problemáticos, como o exibicionismo, podendo cometer a primeira ofensa sexual entre os 10 e 12 anos.

Mulheres também podem ser cruéis. O que acontece é que, em geral, as mulheres são denunciadas com menor frequência.

Mudar esta realidade implica uma total mudança de paradigma. Implica deixar de ver as mulheres como protetoras inatas e os homens como (quase inatamente também) potenciais agressores. Essa mudança implica, igualmente, abandonar os estereótipos em função do sexo e aceitar que homens e mulheres podem ser vítimas ou agressores.





Base de fonte: OBSERVADOR

Canal de Ciências Criminal

MULHERES E PRÁTICAS VIOLENTAS: SILÊNCIO E DESVELAMENTOS

 

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